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Caracterização do Autismo

O autismo infantil é visto hoje como um transtorno de desenvolvimento, com etiologias múltiplas, caracterizado por déficit na interação social, na comunicação verbal e não verbal, com repertório de atividades e interesses acentuadamente restritos. Sua relação íntima com a deficiência mental também existe, e sua diferenciação dos quadros de deficiência exclusivamente mental é difícil, sendo realizada principalmente através da presença de comprometimento qualitativo no desenvolvimento das interações sociais e nas habilidades comunicacionais que, nas deficiências mentais, mesmo quando presente, não é a característica mais importante. Seu surgimento ocorre antes dos 3 anos de idade, com predominância no sexo masculino (3 a 4 para 1), sendo relacionado a fatores pré-, peri- e pósnatais. Há alguma evidência de que as meninas tendem a ser mais severamente afetadas (Wing, 1996 apud BOSA e CALLIAS). Atualmente, nos Estados Unidos, uma em cada 150 crianças é diagnosticada com algum transtorno do espectro autista. No Brasil, apesar de não haver dados estatísticos, calcula-se que existam, aproximadamente, 600 mil pessoas afetadas pela síndrome do autismo (Associação Brasileira de Autismo, 1997), se considerarmos somente a forma típica da síndrome (BOSA e CALLIAS).

Dessa maneira, diferentes quadros genéticos e neurológicos são descritos como a ele relacionados, conforme diversos estudos descrevem, sendo as alterações cromossômicas descritas em altas percentagens por Steffemberg, embora de natureza inespecífica e variada. Sob o ponto de vista do funcionamento mental, embora hipóteses afetivas tenham permeado sua conceituação, atualmente o autismo é considerado um transtorno predominantemente cognitivo, tendo como característica central a impossibilidade de compreensão do estado mental das demais pessoas conforme o referido por Hobson e mais tarde bastante estudado por Baron-Cohen e col. que caracteriza os quadros autísticos como uma falha na, assim chamada, “teoria da mente”, ou seja, uma incapacidade em compreender os próprios estados mentais ou os de outras pessoas (tais como crenças e desejos), embora o próprio Hobson refira o déficit comunicacional como fator também importante nos quadros autísticos. Wing propõe um “continuum” no qual a variabilidade sintomatológica é decorrente do comprometimento intelectual, passando a ser de importância o rastreamento desses quadros de maneira a que não se superponham seus diagnósticos aos de retardo mental.

“A identificação de autismo é de fundamental importância, e as escalas de avaliação permitem mensurar as condutas apresentadas de maneira a se estabelecer um diagnóstico de maior confiabilidade. Apresentam-se sob a forma de questionários, de lista de sintomas ou de inventários. Essas escalas, inspiradas nas ciências exatas, embora utilizadas algumas vezes de maneira indiscriminada, podem ser aplicadas na criança para avaliação de aspectos específicos do comportamento. Dessa maneira, devem ser utilizadas para pesquisa ou para avaliação da evolução de determinados quadros”.


Diagnóstico do Autismo

Diferentes sistemas diagnósticos (DSM-IV; CID-10) têm baseado seus critérios em problemas apresentados numa tríade de categorias sintomáticas, que são:

a) prejuízo qualitativo na interação social;

b) prejuízo qualitativo na comunicação verbal e não-verbal, e em atividades imaginativas; e

c) comportamento e interesses restritivos e repetitivos

“Na ausência de um marcador biológico, o diagnóstico de autismo e a delimitação de seus limites permanece uma decisão clínica um tanto arbitrária. Se forem utilizados os critérios aceitos presentemente para definir autismo, este certamente não é um distúrbio raro. Dependendo dos critérios de inclusão, a prevalência de autismo tem variado de 40 a 130 por 100.000, ocupando o terceiro lugar entre os distúrbios do desenvolvimento, na frente das malformações congênitas e da síndrome de Down. Estudos recentes sugerem que a prevalência dos TID ([Transtornos Invasivos do Desenvolvimento, categoria diagnóstica da qual o autismo faz parte]) possa ser de dois a cinco casos por 1.000, o que levou a especulações a respeito de uma “epidemia” de TID. Não está claro que a prevalência dos TID tenha realmente aumentado; é provável que o aumento no número de pessoas diagnosticadas se deva a um maior reconhecimento desses transtornos em crianças menos gravemente afetadas e a diferenças nos critérios diagnósticos entre o DSM-III e o DSM-IV-R15”. (Gadia et. al.)

História do Autismo

A primeira descrição dessa síndrome foi apresentada por Leo Kanner, em 1943, com base em onze casos de crianças que ele acompanhava e que possuíam algumas características em comum: incapacidade de se relacionarem com outras pessoas; severos distúrbios de linguagem (sendo esta pouco comunicativa) e uma preocupação obsessiva pelo que é imutável (BOSA e CALLIAS). Esse conjunto de características foi denominado por ele de autismo infantil precoce (Kanner, 1943).

O diagnóstico e subclassificações do Autismo estiveram sob o rótulo de ‘esquizofrenia infantil’ por muitas décadas. Entretanto, segundo Rutter (1985), já havia nos anos 70, um reconhecimento de que seria necessário distinguir-se entre as desordens mentais surgidas na infância, e as psicoses cujo aparecimento se faz mais tarde. Considerando que uma séria anormalidade no processo de desenvolvimento está presente desde cedo na criança, o termo ‘transtornos invasivos do desenvolvimento’ tem sido adotado, desde a década de 80. O estudo do autismo, desde as primeiras considerações feitas por Kanner (1943) até as mais recentes reformulações em termos de classificação e compreensão dessa síndrome (Rutter, 1996), tem sido permeado por controvérsias quanto a sua etiologia. Historicamente, reivindicações a respeito da natureza do déficit considerado ‘primário’ (inato x ambiental) têm constituído os principais postulados das teorias psicológicas sobre o autismo. Têm sido propostas teorias psicanalíticas, afetivas, sócio-cognitivas, neuropsicológicas e de processamento da informação.

Teorias Afetivas

Teoria da Mente

Teorias Neuropsicológicas e de Processamento da Informação



DIAGNÓSTICO GENÉTICO E CLÍNICO DO AUTISMO INFANTIL

MARIA IONE FERREIRA DA COSTA*, HENRIQUE GIL DA SILVA NUNESMAIA**


Características clínicas do autismo no Recém nascido

  • parece diferente dos outros bebês
  • parece não precisar de sua mãe
  • raramente chora (“um bebê muito comportado”)
  • torna-se rígido quando é pego no colo
  • às vezes muito reativo aos elementos e irritável


Características clínicas do autismo no Primeiro Ano

  • não pede nada, não nota sua mãe
  • sorrisos, resmungos, respostas antecipadas são ausentes ou retardados
  • falta de interesse por jogos, muito reativo aos sons
  • não afetuoso
  • não interessado por jogos sociais
  • quando é pego no colo, é indiferente ou rígido
  • ausência de comunicação verbal ou não verbal
  • hipo ou hiper-reativo aos estímulos
  • aversão pela alimentação sólida
  • etapas do desenvolvimento motor irregulares ou retardadas


Características clínicas do autismo no Segundo e o Terceiro Anos

  • indiferente aos contatos sociais
  • comunica-se mexendo a mão do adulto
  • o único interesse pelos brinquedos consiste em alinhá-los
  • intolerância à novidade nos jogos
  • procura estimulações sensoriais como ranger os dentes, esfregar e arranhar superfícies, fitar fixamente detalhes visuais, olhar mãos em movimentos ou objetoc com movimentos circulares.
  • particularidade motora: bater palmas, andar na ponta dos pés, balançar a cabeça, girar em torno de si mesmo


Características clínicas do autismo no Quarto e o Quinto Anos

  • ausência do contato visual
  • jogos: ausência de fantasias, de imaginação, de jogos de representação
  • linguagem limitada ou ausente - ecolalia - inversão pronominal
  • anomalias do ritmo do discurso, do tom e das inflexões
  • resistência às mudanças no ambiente e nas rotinas

(*) Adaptado de Ornitz e Leboyer.


“De acordo com Clark aproximadamente 25% dos afetados com autismo infantil, eventualmente apresentam doença convulsiva” (...) “genodermatoses como a esclerose tuberosa e a neurofibromatose são condições clínicas que têm sido associadas ao autismo infantil”. (...) “[Neste estudo] as famílias dos propósitos (...) mostram maior concentração de portadores de distúrbios neuropsiquiátricos do que a população geral”. (COSTA e NUNESMAIA)


Critério diagnóstico (DSM-IV, 1994)



Patologias potencialmente associadas ao autismo

Podem ser congênitas, adquiridas, genéticas, e/ou metabólicas.

Incluem: Rubéola, Cromossomopatias (X-frágil, etc.), Toxoplasmose, Esclerose tuberosa, Citomegalovírus, Neurofibromatose, Síndrome de Moebius, Fenilcetonúria, Síndrome de Dandy-Walker, Histidinemia, Síndrome de Cornelia de Lange, Síndrome de Soto, Doença celíaca, Síndrome de Goldenhar, Distúrbios do metabolismo das purinas, Síndrome de Williams, Microcefalia, Distrofia muscular de Duchenne, Hidrocefalia, Síndrome de Angelman, Síndrome de Joubert, Encefalite, Meningite, Síndrome de West, Intoxicação por chumbo, Cirurgia de meduloblastoma de cerebelo, entre outras.


Tratamentos Disponíveis

Há diversas propostas de tratamento para o autismo, e muitas delas podem ser utilizadas em combinação. Muitos autistas poderão freqüentar uma escola regular; alguns precisarão que as escolas se adaptem para incluí-los – pois a tendência atual é a de inclusão educacional e social, de forma que freqüentem os mesmos meios sociais que todas as outras crianças, ainda que recebam apoio adicional em instituições especializadas.


O Son-Rise é uma forma de abordagem lúdica, centrada na pessoa com autismo, que possibilita o desenvolvimento de habilidades sociais e, através desta, o desenvolvimento de outras habilidades cognitivas e afetivas que estejam prejudicadas na pessoa em tratamento. Pode ser combinado com dietas e outros tratamentos, sempre procurando manter o estilo de interagir/relacionar-se com a pessoa autista, de forma otimista, positiva e divertida. O afeto e a aceitação da pessoa com autismo são componentes essenciais do programa Son-Rise. É utilizado há mais de 30 anos no exterior, e agora possui representantes em nosso país. O programa depende da participação intensa dos pais e da ajuda de voluntários abertos para aceitar o autista e implicados no programa.

O Tratamento biológico é baseado na normalização das funções bioquímicas do organismo, além do aumento da imunidade e eliminação de possíveis metais pesados presentes no organismo (destacando alumínio, chumbo e mercúrio). Há também as dietas sem glúten e caseína, suplementação de vitamina B6, e uso de câmara hiperbárica.

Alguns dos modelos de tratamento mais conhecidos no Brasil são os cognitivos, como o TEACCH, que se propõe a organizar o ambiente de forma a facilitar a compreensão do aluno com autismo, e pode ser utilizado tanto na escola quanto em casa; e os comportamentais, como o ABA, que analisa a relação entre os comportamentos emitidos pelos sujeitos e os estímulos ambientais que costumam influenciar estes comportamentos, de forma a estruturar uma intervenção que os controle (aumentando ou fazendo surgir comportamentos desejáveis e eliminando os comportamentos indesejáveis).

O PECS, também bastante conhecido no Brasil, é um sistema de facilitação da comunicação que utiliza figuras para substituir a comunicação falada, principalmente com autistas “não-verbais. É utilizado como forma de ensinar a simbolização (relacionar uma figura com o objeto real) e estimular a comunicação espontânea, assim como aumentar o vocabulário, etc., sendo que a finalidade última seria a de que o desenvolvimento dessas habilidades leve ao desenvolvimento ou aperfeiçoamento da comunicação oral propriamente.

A utilidade dos diversos tratamentos dependerá de fatores individuais e situacionais. Para um determinado indivíduo, um modelo pode mostrar-se mais eficiente do que outro. Da mesma forma, para uma determinada demanda (como, por exemplo, lidar com comportamentos de auto-agressão ou uso adequado do banheiro) um modelo de intervenção pode mostrar-se mais indicado do que para outras demandas (como desenvolver a linguagem e comunicação, habilidades bastante complexas).


CITAÇÕES


MCKEAN:
“Eu espero pelo dia no qual você sorrirá para mim, porque perceberá que existe uma pessoa decente e inteligente... 
pois eu tenho visto como as pessoas olham para mim, embora eu nada tenha feito de errado”.
“Eu estou cansado de negar quem eu sou. Eu não quero mais fazer isto, nem para mim, nem para as pessoas a quem amo. 
Mas, primeiro eu preciso conhecer, amar e aceitar quem eu sou. Devo encontrar a pessoa que cresce dentro de mim”.
SINCLAIR:
“Concedam-me a dignidade de me encontrar segundo meus próprios termos, reconheçam que somos diferentes e que o meu 
modo de ser não é apenas uma versão defeituosa do de vocês. Reavaliem suas posições. Definam seus termos. Trabalhem 
comigo na construção de pontes entre nós”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ESCALA DE AVALIAÇÃO DE TRAÇOS AUTÍSTICOS (ATA) VALIDADE E CONFIABILIDADE DE UMA ESCALA PARA A DETECÇÃO DE CONDUTAS AUTÍSTICAS

FRANCISCO B. ASSUMPÇÃO JR.*, EVELYN KUCZYNSKI**,

MARCIA REGO GABRIEL***, CRISTIANE CASTANHO ROCCA****

http://www.autismo.com.br/sugestoes/LEITURA/4.pdf

RECONHECIMENTO FACIAL E AUTISMO

FRANCISCO B. ASSUMPÇÃO JR*, MARIA HELENA SPROVIERI**,

EVELYN KUCZYNSKI***, VERA FARINHA****

http://www.autismo.com.br/sugestoes/LEITURA/6.pdf

Autismo: breve revisão de diferentes abordagens

Cleonice Bosa - Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Maria Callias - Institute of Psychiatry – University of London, Inglaterra

http://www.autismo.com.br/sugestoes/LEITURA/9.doc

DIAGNÓSTICO GENÉTICO E CLÍNICO DO AUTISMO INFANTIL

MARIA IONE FERREIRA DA COSTA*, HENRIQUE GIL DA SILVA NUNESMAIA**

http://www.autismo.com.br/sugestoes/LEITURA/13.pdf

Autismo e doenças invasivas de desenvolvimento

Autism and pervasive developmental disorders

Carlos A. Gadia, Roberto Tuchman, Newra T. Rotta

http://www.autismo.com.br/sugestoes/LEITURA/14.pdf

Son-Rise:

http://www.inspiradospeloautismo.com.br

Wikipédia:

http://www.wikipedia.com

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